segunda-feira, 20 de junho de 2011

...ela arrumara
tudo com cuidado
cada canto
tinha um significado
só seu

cada espaço em seu peito
tinha lugar certo
ela tinha tudo
bem planejado
sabia cada passo que
deveria dar

por anos
ajeitou cada pedacinho
do seu coração
preencheu cada pequeno
detalhe
cercou-se
de suas verdades

mas 
um dia
veio a ventania
e derrubou tudo
sem nada dizer

veio sem avisar
sem perguntar 
que efeito teria

desalinhou o que pôde
e nem ao menos
tentou justificar

ela não compreendia
achava que a vida
seria sempre
do jeito que ela
planejou

mas
a tempestade 
zombou de suas tão
bem alinhadas
certezas

sorriu de suas
vãs tentativas
de resistência

faltava-lhe coerência
argumentou

disse-lhe apenas
que deveria
estar preparada
para viver

ela não sabia
não compreendia
a vida da maneira
que se lhe apresentava

ela sempre cuidara
de tudo
e agora
já não lembrava mais
o lugar 
onde as coisas
deveriam estar

suas estruturas
foram tão abaladas
ela tinha que começar
tudo de novo

um dia lhe disseram
que recomeço
parte de um ponto
conhecido
e
começar
era abraçar o infinito...

ela achou bonito
mas muito difícil de
entender

sentia-se a única pessoa
no mundo
incompreendida
em seu sentimento

ela viu-se perdida
em meio ao caos
que passara a ser seu
coração

olhava para o céu
e perguntava para o criador
o que fazer
porque já nem mais
sabia quem era
...
ela já fora
pedaço de primavera
mas àquela que um dia se
chamara flor
perdeu-se na madrugada
vestiu-se de nada
e do nada
...se reinventou...

....eu ...
flor de janeiro
regada por um jardineiro
que já se foi ...

e se ele estivera aqui
ah...
eu não estaria tão à mercê
do que sinto

ele me abria as portas
do mundo
me ensinava
a ser mais real

ele 
foi professor
e com seus olhos de
chumbo
me falou de um
amor
que eu nunca mais vi

a flor de janeiro
tem medo de crescer
e por muito medo de sofrer
sofreu
sem saber qual o gosto
da vida

vê-se sozinha
perdida
em meio aos 
seus devaneios
que são parte essencial
de si

tenta relembrar
as coisas que o jardineiro
um dia lhe disse

mas tudo é tão novo
para flor
ela
que nunca antes
conhecera o amor...

...se entregou...

e se deu tão plenamente
 agora vê-se
somente
à espera
...
o jardineiro
não podia ter partido
não com a flor ainda 
tão inocente

ela que sempre olhou o
mundo com lentes
coloridas
vê hoje
quanto pode ser dolorida
a vida
...
sente saudades de todos
os pedaços do seu coração
ela
pedaço de poesia
presa na nostalgia
sente cheiros
toques
vozes
e sorrisos

...e deles se alimenta...